Na intenção de cercear as ações da ministra Eliana Calmon, através de liminar impetrada favorável a quem teme de fato uma luz, ainda que tênue, sobre o Judiciário (AMB, Ajufe, Anamatra e outros inomináveis juízes), o ministro Marco Aurélio Mello deu uma estoca violenta no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mas, errando o golpe, conseguiu apenas depilar a virilha da Justiça, deixando à mostra o gabarro podre por onde exala um cheiro fétido que há décadas vem causando náuseas no povo brasileiro: a corrupção naquele poder. Coisa que ninguém jamais sequer teve a petulância de inquirir publicamente. A audácia da ministra talvez seja o maior legado de 2011 para nós, os brasileiros, pois ela descobre, à vista de todos, os pés sujos da Justiça e por onde boa parte dela tem andado. Não obstante à opinião pública, agora querem cobri-los com o cobertor curto das liminares no Supremo. Uma vergonha.
A declaração da ministra Eliana Calmon de que há bandidos escondidos por trás da toga mexeu com os brios do alto clero jurídico brasileiro, mas de forma inversa. Marco Aurélio, nesse espetaculoso ato liminar isolado, comprometeu de forma sucinta e indelével diante da opinião pública, sua classe, a dos magistrados superiores, dando mostras de que ali, na alta Justiça, de fato, há algo podre, muito podre. Não só na alta Justiça, mas também no baixo clero dos fóruns, ficou a suspeição nítida e irrefutável de que algo tem que ser escondido das vistas da nação.
Todos sabiam que ali tinha alguma coisa, pois fecha muito o lixo por baixo do tapete. Faltava um subversivo corajoso para expor à opinião pública as intimidades do Judiciário. Não foi a declaração da ministra Eliana que colocou em xeque o Judiciário, mas o ato intempestivo de Marco Aurélio Mello. (Ficou parecendo que a corrupção rói por dentro, até o último recôncavo de honestidade que poderia existir no Brasil, o Judiciário.)
A imagem que agora nos fica é que aquela moça de pé, com os olhos vendados, uma balança na mão e uma espada na outra, pronta para fazer Justiça, prostituiu-se ao ponto de não ter coragem sequer de pôr a cara pra fora; nem mesmo na janela de sua casa em Brasília. Foi necessário que proibissem de ser investigada nas suas estranhas, para não expô-la além do que já se sabe – seu caso de adultério. O medo de mostrar que, no poder, todos são iguais, absolutamente iguais, quando o assunto é corrupção e enriquecimento ilícito, tomou o ato liminar do ministro uma confissão tenebrosa do que poderia haver nos meandros da Justiça. Dessa forma, a moça virginal de nosso imaginário, que representava a Justiça, na verdade, me parece uma mocinha desnuda que brinca de cabra cega na alta corte do direito brasileiro. Que pena!
Quando Montesquieu (1689-1755) escreveu O Espirito das Leis, criando, ali, esse modelo de triunvirato – Executivo, Legislativo e Judiciário, para a sustentação de uma sociedade civilizada sob a ótica de um policiamento mútuo, penso que lhe escapou a ideia do que é um Estado corrupto na sua mais pura acepção, como é o nosso caso.
A broca moral do brasileiro reside na raiz de sua origem. Desde que a coroa portuguesa desembarcou no Brasil e em 1808, o arcabouço do poder sempre foi armado de cima pra baixo e nunca de baixo pra cima como nos EUA, onde a sociedade fundou o Estado e não o Estado fundou a sociedade.
Nosso Legislativo é um prostíbulo da mais alta imoralidade. Varacoito das matilhas partidárias, todas sequiosas por verbas públicas, e para com elas alimentarem seus filhotes, os chamados deputados e senadores.
Nosso Poder Executivo, corrupto e corruptor aos mais rés do chão, compra na mercearia do Congresso votos necessários para suster-se, gerando uma toma-lá-dá-cá desavergonhado.
Veja o caso do mensalão e etc...
Nossa Justiça, que pena, tomou-se comborça, ora do Executivo ora do Legislativo. A regra do notório saber foi deixada de lado para se nomear o Supremo, a regra agora é sublimar pela paridade de gênero, pela amizade estreita e, por que não dizer, pela igualdade racial – nada contra sua excelência, o ministro Joaquim Barbosa, reserva moral daquele ambiente. Tudo isso para que a corte possa transparecer democrática. Uma pergunta:
Que democracia pode haver na Justiça que não seja o pleno direito?
Fato curioso: por liminar, o ministro Ricardo Lewandowski (STF) suspendeu as investigações do CNJ em 22 tribunais. Logo após, a Folha de S. Paulo denuncia que ele é um dos investigados. Esse mesmo ministro disse há poucas semanas, em reportagem, que o processo do mensalão vai dar água.
Estaria o Supremo operando pela governabilidade do PT através de suas recentes nomeações? Analisemos o caso Lula denunciado por Marconi Perillo e Raquel Teixeira sobre sua ciência e conivência com o mensalão. Isso poderia o ter levado ao impeachment.
O historiador Marco Antônio Vila, em artigo recente no jornal O Globo, denuncia as loterias salariais da alta corte. Os salários mais parecem a materialização do paraíso. É a inescrutável ilha da fantasia dos inefáveis anjos de toga.
Sabe, caro leitor, aquela mulher deixada à parte, como reserva moral para nossa mais íntima necessidade, a Justiça está parecendo uma vadia, que agora quer esconder-se por trás de liminares sorrateiras. Ela não quer vir a público explicar seu concubinato político. Na ausência da lamparina chamada “opinião pública”, ali ela se deita para torcer sentenças. Não se quer ver expostos seus caprichos, seus privilégios, sua astronomia financeira, o vazar de seus procedimentos futuros para advogados privilegiados de grandes corporações. Ora, por que querem cobri-la?
O que nos faltava era o sibarismo jurídico, nada mais nos falta, estamos completos. Para terminar, uma expressão bem brasileira: Foi-se a corda com a caçamba!
Fonte: Diário da Manhã (09.01.2012 - Pág.02, Opinião Pública)
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